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Atendendo a que não se encontrou, até hoje, registos sobre a
sua construção, recorremos à inscrição, numa pedra frontal da capela que mostra
“1S80”, ou seja, pelo
menos desde 1580.
Ao longo da
história foi sofrendo adaptações, nem sempre com gosto pela preservação da arte
original. Há uma dúzia de anos, tiraram a vestimenta branca da cal, exterior,
com as pedras originais à mostra, mas com as juntas tapadas em cimento. Alguns
anos antes, já tinham restaurado o telhado e a estrutura do mesmo, tendo ficado
com uma laje em betão no cabanal da ante-entrada, fachada principal, virada a
sul, alterando assim o tecto tradicional. Em toda a volta e junto ao telhado,
existe um anel, em pedra diferente, o que terá resultado de um acrescento em
altura nas paredes. A parede da entrada da capela propriamente dita, após o
alpendre, parece ser de edificação posterior às restantes paredes. Contém, esta,
na largura da fachada, duas portas laterais, uma de cada lado e duas janelas no
intervalo. No interior e em frente está o altar, com um simples retábulo.
A riqueza
desta capela manifesta-se, ainda, na pintura que representa o calvário em
Jerusalém e na cruz “em galho de carvalho”, com cerca de 250 centímetros de
altura, uma tela pintada a óleo, que foi totalmente recuperada, pela intervenção
do Sr. Padre António Maria Bento Pires, e que é uma raridade, segundo diz o Dr.
António R. Mourinho. Possui talha dourada como moldura.
A “cruz de
galho de carvalho” é uma raridade quinhentista.
Perante a
degradação, a que estavam votadas, as peças interiores, o sentido de preservação
de um património local, tão importante, o Sr. Padre Bento Pires, em 2002,
consegue autorização para recuperar todo o interior da capela.
Feito o
contracto com o empreiteiro, este começa os trabalhos, picando as paredes para
receber uma nova cara. Qual não é o seu espanto ao descobrir que, por baixo da
cal das paredes, há pinturas diversificadas. Aí estavam a emergir uns frescos,
em toda a altura das paredes e a toda a volta, com excepção da zona da janela e
da fachada principal, no seu interior. Dado conhecimento a quem de direito, as
obras de limpeza da cal das paredes fazem-se com cuidado, para não estragar mais
as pinturas.
Perante o
achado pergunta-se quem e quando teriam sido feitas as pinturas? Porque as
taparam de forma tão rigorosa? Teria havido intenção, no atentado à obra de
arte? Seria do tempo dos Mouros ou do tempo dos Templários?
Apenas duas
datas eram visíveis, no exterior. Uma na fachada principal e a outra na parede
lateral. Certo é que os mais velhos se surpreenderam, pois nunca ouviram falar,
aos seus antepassados, de qualquer imagem nas paredes e muito menos de terem
sido tapadas. Desconheciam totalmente a sua existência.
Ao que parece, foram apenas objectivos religiosos, que
presidiram ao encobrimento das imagens. Segundo o Dr. António Rodrigues
Mourinho, em tempo pós Távoras, a perseguição a essa família, fez com que se
fizesse desaparecer tudo que a pudesse lembrar.
Estávamos em 1777, a data que está na entrada da capela. Ainda, segundo o Dr.
António R. Mourinho, existe uma capela igual na arquitectura e da mesma data
(1584), em Vila Chã da Barciosa, Miranda do Douro, e de pinturas iguais em
Sendim.
Podem ter
sido mandadas pintar por algum conterrâneo rico da época. Falou com largas
suspeitas de D. Jerónimo Preto de Lemos (cónego da Sé de Miranda do Douro), que
tem um brasão, com as suas armas, localizado aqui, em Bemposta. Este brasão
encontra-se na capela mandada construir pelo mesmo cónego em 1730, como já se
referiu, num capítulo anterior.
As pinturas são todas renascentistas,
pois nos corpos retratados é visível o efeito de profundidade, pelo emprego da
perspectiva e pela representação de movimento.
Embora as imagens estejam pouco visíveis, já se vai percebendo que alguns temas
podem ter nome. As sequências de imagens representam, numa visão própria da
época, as 14 estações da Via-sacra, que segundo o Dr. Mourinho, podem ser: "a
ressurreição", "Cristo descendo ao limbo", "Cristo coroado de espinhos" e
"Cristo em frente de Pilatos". As imagens parecem ser num total de catorze,
ordenadas em duas filas, sobrepostas em altura., havendo mais duas do lado
direito do altar.
Para muitos, a capela ficava mais bonita se rebocassem, a cimento, tudo,
esquecendo as figuras, tal como estão. Para outros, é uma pena as figuras não
serem recuperadas, pois caracterizam a arte e a religiosidade de uma época.
Citando o Dr.
Mourinho: - “Vocês não imaginam a riqueza que aqui têm... “
Preservadas
as pinturas, espera-se que a Câmara e o IPAR, façam a sua recuperação total.
Completado
todo o trabalho de recuperação da arquitectura tradicional, a capela foi
oficialmente inaugurada, no dia 29 de Agosto de 2003, data do 80 º aniversário
do Sr. Padre António Maria Bento Pires, seu benfeitor. Esta foi a melhor prenda
que podia ter dado a Bemposta. Ainda bem que vai havendo alguém que, de forma
desinteressada, tem gosto nas suas raízes.
A partir de agora,
as festas de Santa Cruz e outras passaram a ser religiosamente, celebradas neste
local.
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